GRAÇA E PAZ

Entre, ame, seja amado,ensina-me, por que Nele nós amamos e somos amados

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Transcendência-Imanência-Transparência



Não há tradição cultural que não se refira a um Princípio criador ou a uma Energia originária ou simplesmente a Deus.A grande questão é como expressar essa Realidade.Aqui mais que teólogos que falam sobre Deus contam os que falam com Deus como os místicos e os profetas,cujo testemunho não pode ser negado.Na história do pensamento se delineiam três maneiras de falar com referência a Deus.

A primeira fala de transparência.Deus é tão outro que tudo o que dizemos dele é mais mentira que verdade.O melhor é calar ou apenas sorrir amavelmente como Buda.

A segunda fala de imanência.Deus é experimentado de forma tão intensa que ele se anuncia em cada coisa.Assim vem enraizado dentro do mundo. E  é chamado por mil nomes.

A terceira fala de transparência.Busca um caminho intermédio. Deus não pode ser transcendente,pois se assim fosse, como saberíamos dele? Ele deve ter alguma relação com o mundo. Anunciar um Deus sem o mundo, faz fatalmente nascer um mundo sem Deus. Também não pode ser tão misturado com as coisas que acaba sendo uma parte deste mundo. Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe. Ele é o suporte do mundo não porção dele.

É aqui que tem sentido a transparência. Ela afirma que a transcendência se dá dentro da imanência sem perde-se nela, caso contrário não seria realmente transcendência.E a imanência carrega dentro de si a transcendência porque comparece sempre como uma realidade aberta a intermináveis referências. Quando isso ocorre a realidade deixa de ser transcendente ou imanente. Ela se faz transparente. Encerra dentro de si a imanência e a transcendência.
Tomemos o exemplo da água. A água é água, jorrando da fonte (imanente). Mas é mais que água. Simboliza também a vida e o frescor (transcendente). Ao transformar-se em símbolo de vida e frescor, a água se torna transparente para estas realidades. E o faz por ela mesma e nela mesma.

Essa talvez seja a forma mais sensata de falar sobre Deus e a partir de Deus. Na forma do paradoxo. Por um lado devemos afirmar que todas as nossas palavras são inócuas. De Deus não podemos fazer nenhuma imagem. Por outro lado, não podemos dizer que Deus é o totalmente indeterminado, qualquer coisa vaga, um fundo sem findo.
A realidade de Deus (não sua imagem) é um concreto concretíssimo, o ser em plenitude, portanto uma realidade concreta mas sempre para além de qualquer concreção. É representado pela água mas ele não é água. Identificar água e Deus é cair na idolatria.


Leonardo Boff

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